Eu te deixei claro desde a primeira mensagem da manhã.


Logo cedo você saiu às pressas

Corria ao que parecia uma dança inspirada no revoar da nossa cortina

Sempre macia e ainda mais imprevisível, mas controlada


Foi logo alí, no meu devaneio poético matinal, que entendi o nosso dia

Tive uma breve inveja daquele suporte sobre a janela

Que assistia àquela dança de tão perto e assistia aquele descontrole com força

Que permitia àquele tecido voar livremente dentro do seu alcance


"Varão" é um dos nomes daquilo com o que eu havia me identificado, mas eu não podia te escrever isso

Você sabe que meus pratos eu cozinho com calma

Que meus preparos levam muita atenção e nenhuma pressa

E esse triste acidente tão explícito do português faria desandar o caldo, e isso eu não admito


"Levantei na suspensão de um sonho onde eu ainda podia mergulhar no teu corpo quente"


Não havia sonho nenhum

Mas dentro do nosso jogo você sempre soube que as verdades das minhas poesias estão ou na lembrança ou na vontade

E nesse caso era óbvio


A ausência da tua resposta só me fazia criar mais e mais formas sobre como eu ia te ter ao fim do dia

E o balanço da cortina em camadas expostas e secretas

Em curvas suaves e toques firmes

Ao deslizar no meu corpo com os braços presos ao alto

Me olhando com vontade


Eu estava ali sentado de frente pra janela e não conseguia parar de te ver naquela dança

Sou um completo apaixonado pelo jeito que teu corpo gosta de se mover

E pela forma que as tuas partes sorriem à vida


Me ocorreu que nunca eu havia pensado sobre termos uma cortina de seda



Cinco horas mais tarde e eu estava lá, no mesmo lugar, agora brincando com aquelas faixas macias

Testando cada tipo de nó

Entendendo na minha própria pele o prazer da pressão daquele tecido

Me vendo, pela perspectiva que logo seria a sua, os impulsos que me surgiam ao ter meus dois braços amarrados ao teto


Acendi sua vela preferida uns minutos antes da sua chegada

Dando tempo ao seu cheiro para se tornar nossa casa

Precisamente sincronizados desde a última mensagem que você iria receber de mim naquele dia


"Antes de voltar para casa, para no teu restaurante preferido. Ouve esssa playlist enquanto estiver lá e se acostuma a ficar de olhos fechados."

"Reservei a mesa e um vinho, mas deixei o prato à sua escolha. Pede algo leve"


Eu sempre soube como o jogo mexia com você.

Sempre soube que uma palavra ou uma atitude cirurgicamente posta se transformava em ideia

Que ideia se despia em vontade

E que a vontade te cozinhava por dentro

Te fazia água e fogo ao mesmo tempo

E de todas as bocas, a minha também se enchia d'água


Teus 3 primeiros passos dentro de casa foram os mesmos de sempre

No quarto você sentiu o prazer da seda deslizando no teu rosto

Fechando teus olhos

Repousando como que um aviso aos demais sentidos: agora eles tem vez


Te dei um gole do mesmo vinho

Te dei tempo para respirar com calma e sentir o aroma da sua casa

Me aproveitando da noite quente, te despi ali mesmo


Quando andamos pela casa pelados e de olhos fechados, qualquer brisa que brinca e sopra nosso corpo se torna um convite


Te coloquei deitada e comecei a te saborear com os olhos

Te olhando de perto, colando meu rosto na tua coxa sem te encostar

Sentindo o cheiro da tua pele me confirmando todo o meu tesão ao longo do dia

Se eu havia sonhado tanto acordado, seguia sonhando


Te deixei sentir minha presença pelo calor do meu corpo todo perto do seu

Como se tivéssemos todo o tempo do mundo, parei com o meu rosto no seu pescoço

Fiquei ali te ouvindo respirar

Ouvindo o tom sensual das suas fantasias

E em uma delas eu despertei


Hoje não era dia de te massagear o corpo

Nem de te deixar solta


Mudei o tom da música enquanto passeava meus lábios pela tua barriga

Quebrei a tensão dos nossos corpos passando meu braço pelas tuas costas e apertando teu corpo contra o meu

Num movimento único te levantei da cama sentindo a vontade do teu corpo de me comer inteiro

E te coloquei no seu lugar

Encostada na parede

Amarrei teus pulsos em uma mesma imagem da cortina


Com os braços ao alto eu te tenho vulnerável

Te como com os olhos enquanto você se balança ao ritmo de um tesão se descontrolando

Você ainda não enxerga nada mas já me imagina inteiro

Te seguro o cabelo firme e aponto sua boca pra minha

Encosto meus lábios, quero sentir a tua língua macia e quente

Você me sente duro


Me afasto

Pego meus brinquedos


Nesse mar aberto, sem ver e sem saber onde estou, teu corpo balança em ondas

Teus movimentos mínimos refletem a súplica da tua pele:

"Me encosta"

"Me aperta"

"Me faz tua"


Eu vejo sua pele arrepiando enquanto sente um toque te passear

Um gelo te assusta onde minha boca te faz derreter logo depois

Dou voltas ao seu redor e não tenho mais pudor ao te tocar a pele


Encosto meu peito nas suas costas

Aperto seu pescoço

Seguro seu cabelo

Respiro ao pé do seu ouvido enquanto sentimos nossos sexos pulsando juntos

Um ao lado do outro


Me afasto uma última vez do seu corpo

Mas não solto seu cabelo

Você sabe; quer

E suas costas arqueadas gritam uma vontade molhada


Te encosto só alí

Todo tesão das últimas horas

Toda vontade daquele meu dia

Suspensos em um instante

Em um único ponto

Em um único movimento


Eu te mergulho lentamente

Fevereiro 2021